Morrí, mortinho da silva. Aconteceu aos poucos, de modo suave, como um pôr-de-sol onde a luzes do dia vão se esvaindo até que tudo vire noite. Uma noite sem lua ou estrelas, mas de uma sensação de paz infinita. Cheguei ao Miguel Couto, sem vida, sem dívidas ou dúvidas consignadas, pobre, mas limpinho, (acabara de sair do banho) sem fome diet, ou sede light.
A morte como disseste, não é certamente um chiste. Talvez, brincadeirinha. Não passa disso. Aliás, bem pode ter suas vantagens, seu lado positivo, claro, do outro lado, mas isso são apenas detalhes, para mim, ateu convicto, pagão e agnóstico de papel passado.
Estar morto, é simplesmente não ter consciencia de que morremos. Dá até pra imaginar; Puxa, que azar, morrí!... e agora? Não, não é bem assim. A morte não tem luz no fim do túnel. Nem túnel havia. Nadica de nada. Aliás, nem procurei. Morto, não enxerga bem. Sem luz, sem túnel, sem fim...
Estava eu lá no bem-bom e de repente, um choque. Depois outro. Mais além, o retorno à vida e a dor e como dói. Vinte dias na unidade coronariana e um stent via femural. Cateterismo e Síndrome da comadre. Fazer xixi e cocô assim, tira-nos a dignidade. Ao final, a sensação de que tudo voltava a seu lugar, e nem sei se foi bom. Viver agora é estado de atenção permanente e minha mulher completa; - Não foi nada, meu bem, sossegue. Fui eu que apaguei a luz...
De uns tempos para cá, as coisas foram perdendo a graça, o colesterol, triglicerídeos, alcatrão, nicotina. Monótonamente repetitivas, as novidades tornam-se passado, mesmo antes de as sabermos e lá vou eu agora carregado entre enchentes, aos 42 graus do verão, pelos setenta anos de idade, literalmente cosido em água morna. Só falta o cheiro verde.
Piada, só se for de portugues. A morte é um meio de escapar definitivamente de ter de arrumar a cama no dia seguinte, de arranjar desculpas por não ter feito, o que não queria fazer, de todas as coisas pé-no-saco. Fazer cara de agrado para pessoas te cercam e não te deixam respirar. BBB.
- Olhem, hoje nem vale uma espiada na casa. Tá uma chatura só.
A morte é um meio eficaz de evitar aquele sentimento de revolta dolosa ( sem intenção de matar) pelo coitado do juiz na reta final do brasileirão, mas continuo achando que foi penalti...
Desculpa te falar apenas de minha morte. Nem sou importante. É que ela, a morte é uma só. para todos. Apenas não acredite quando te disserem que da vida nada se leva. Ao contrário, amigo. A morte leva tudo consigo, tudo em que acreditas, a tua vergonha, a tua mentira, a vaidade a tua alegria e a tristeza também,o teu tesão, porém acima de tudo, leva a tua verdade. Teu único e derradeiro bem.Então n ão a culpe, por não utiliza-los mais.
O ser humano em sua infinita sabedoria, diferentemente dos demais seres vivos, acha-se o rei da cocada preta e toma para si decisões que só cabem a mãe natureza, a mesma que o criou, da qual ele faz parte, ainda que, reticente, não mais lhe agrade. Inconformado por não ter como escapar da dita cuja, cria de próprio punho, deuses, divindades, alma e espírito, vidas passadas e futuras, as mais esfarrapadas desculpas pra não enfrenta-la. Esquece que se a vida não é justa, o mesmo não se aplica a morte.
A morte é acima de tudo, politicamente correta. Recebe a todos de maneira igual. Sem distinção ou preconceitos.É Errado dizer que fulano teve morte horrível, pois ela, a morte, só vem depois do fim da vida. A morte é uma tão somente uma constatação de que a vida terminou ali e já não adianta sequer recarregar o celular. Vai cair direto na caixa postal. Minha amiga e esposa amantíssima ( debruçada, lendo estas mal traçadas linhas)
- Não me incomodaria, desde que para o Encontro Marcado, viesse o Brad Pitt.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
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